O número de atendimentos relacionados à ludopatia na rede pública de saúde da Bahia cresceu mais de 445% entre 2021 e 2024. Os registros passaram de 688 para 3.750 no período, segundo levantamento obtido pelo Bahia Notícias junto ao Ministério da Saúde.
A ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo ou jogo patológico, é caracterizada pela dificuldade persistente de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais, familiares e profissionais.
Os dados consideram atendimentos presenciais realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tanto na atenção primária quanto na especializada. Em 2022, foram contabilizados 1.225 registros. No ano seguinte, o número subiu para 2.331, antes de atingir 3.750 em 2024.
O Ministério da Saúde esclarece que os números correspondem à quantidade de atendimentos, e não necessariamente ao total de pessoas atendidas, uma vez que um mesmo paciente pode comparecer a consultas diferentes ao longo do tratamento.
Facilidade de acesso às apostas preocupa especialistas
O crescimento dos atendimentos ocorre em meio à popularização das plataformas de apostas esportivas e dos jogos on-line. A facilidade de acesso por celulares, associada à publicidade e à promessa de ganhos rápidos, está entre os fatores apontados por especialistas para explicar a procura crescente por assistência.
Em entrevista ao Bahia Notícias, a psicóloga clínica Amanda Guene destacou que as apostas podem ser apresentadas como uma alternativa para resolver dificuldades financeiras, levando pessoas endividadas a acreditar que conseguirão recuperar o dinheiro perdido.
Segundo a especialista, esse comportamento pode criar um ciclo de prejuízos: a pessoa aposta para obter ganhos ou aliviar preocupações, perde dinheiro, enfrenta mais ansiedade e volta a jogar na tentativa de recuperar os valores.
A repetição pode comprometer o orçamento doméstico e prejudicar os relacionamentos familiares, além de agravar o sofrimento emocional.
Consequências vão além das perdas financeiras
A ludopatia não se limita ao hábito de apostar com frequência. O principal sinal de alerta é a perda de controle sobre o comportamento, especialmente quando a pessoa continua jogando apesar das consequências negativas.
Entre os possíveis impactos estão o endividamento, a dificuldade de manter compromissos financeiros, os conflitos familiares, a ansiedade e o isolamento social.
A identificação precoce do problema é importante para evitar que as perdas se acumulem. Familiares e pessoas próximas também podem precisar de orientação para compreender o transtorno e apoiar quem enfrenta dificuldades com apostas.
Como procurar ajuda pelo SUS
Pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber orientação e avaliação profissional. Conforme a necessidade, o paciente pode ser encaminhado para serviços especializados da Rede de Atenção Psicossocial, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
O Ministério da Saúde também disponibiliza atendimento on-line especializado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas por meio do aplicativo Meu SUS Digital. O acesso é feito pelo aplicativo, onde o usuário pode buscar o serviço e verificar as opções de atendimento disponíveis.
A assistência pode incluir acompanhamento psicológico e avaliação das necessidades individuais, com atenção aos efeitos do comportamento sobre a saúde mental, as relações sociais e a situação financeira.
Desafio para a saúde pública
O aumento dos registros reforça a necessidade de ampliar a prevenção, a identificação precoce e o acesso ao tratamento. Embora os dados não indiquem, isoladamente, quantas pessoas desenvolveram o transtorno no período, a evolução dos atendimentos evidencia uma demanda crescente por assistência na rede pública.
Para especialistas, além do tratamento, são necessárias ações de conscientização sobre os riscos das apostas, informação acessível à população e estratégias para reduzir os danos associados ao comportamento compulsivo.
O enfrentamento da ludopatia exige uma abordagem que considere não apenas o ato de apostar, mas também os fatores emocionais, sociais e econômicos que podem contribuir para a manutenção do problema.

